Resenha do artigo Notas sobre a experiência e o saber de experiência de Jorge Larrosa Bondía- tradução e João Wanderley Geraldi.

Standard

Resenha do artigo Notas sobre a experiência e o saber de experiência de Jorge Larrosa Bondía- tradução e João Wanderley Geraldi.

Jorge Larrosa Bondía é Doutor em pedagogia pela Universidade de Barcelona, Espanha, onde atualmente é professor titular de filosofia da educação. Publicou diversos artigos em periódicos brasileiros e tem dois livros traduzidos para o português: Imagens do outro (Vozes, 1998) e Pedagogia profana (Autêntica, 1999).

Na minha primeira leitura do texto sugerido, ela me causou desconforto e contrariedade. Saí dela com a impressão de que o autor quis conceituar ou trazer significados para a palavra experiência trazendo-as como verdades absolutas. Não consegui lê-lo sob o viés de uma proposta de aprendizado.  Li como uma estrangeira, em um país onde ela não sabe o idioma. Não consegui ir além de um nó na minha cabeça. Por isso, a minha primeira leitura não foi agradável. Assim, minha avaliação inicial foi:

Que o autor partindo de definições que dão como verdades absolutas sua visão do que é experiência, ele estipula que a técnica/ciência e a teoria/prática não valem nada sem a experiência individual. Se a experiência passou por mim, ela é válida, se ela é fruto do outro, ou seja, informativa ela é uma não experiência. O outro não se presta para ensinar porque a experiência é um passar por mim. Se ela passou através da ciência ou dos canais da sociedade, ela não presta como conhecimento. Em momento algum considera que a informação poderá ser o estopim para uma inovação ou uma reinvenção. Algo que passou pelo o outro.Se nada nos passou pioneiramente e  individualmente, nada aconteceu. A experiência é nula se tiver procedência do outro. Ter opinião dessa não experiência é pior ainda. Porque estamos reproduzindo um nada. Todos os meios de comunicação são veículos de não existência. Somado a isso, a experiência vem sendo cada vez mais fadada a um nada coletivo, porque não temos tempo. Tudo é novo e rápido demais e ao sujeito sem tempo, nada lhe acontece. E como não podemos parar, nada vai acontecer mesmo e como as fontes estão maculadas pelo o outro, não vão gerar experiência. E para piorar o cenário do conhecimento, se além da falta de tempo, você trabalha, esqueça. Sua experiência advinda do seu trabalho nunca será conhecimento. Porque a experiência trazida pelo trabalho é apenas uma moeda de troca no mundo capitalista. Querer considerar no processo de aprendizagem a experiência (a não experiência) advinda do trabalho, para o autor, é a prova de que a sociedade consumista chegou impondo padrões na pedagogia. Ao chegar ao sujeito da experiência o cenário piora. A idéia de uma passividade é o que valida o sujeito viver algo que lhe aconteça, ou seja, a experiência deve ser aquela de um sujeito abobalhado diante do seu objeto de desejo. Ele é sugado pela experiência que lhe passa. Ele não pode atuar, ele recebe. Recebe e ama essa experiência com paixão. E confesso que terminei a leitura, mas não consegui ter muita atenção a partir do item 6. Já iria concluir a minha resenha, com um exemplo de experiência única e que passará por mim e que me deixará passiva: a morte.

Foi quando resolvi comentar a minha má impressão sobre o texto no grupo que a nossa turma promove e senti que eu poderia ter sido um tanto limitada. Comecei me questionar o que eu não havia entendido no texto e se por isso essa minha negação á palavra (dele). Fui ler sobre o autor, achei algumas entrevistas e resenhas de outras obras.

Em uma entrevista concedida durante a Bienal, quando o autor ao responder sobre quais as contribuições de um seminário para o público ouvinte, ele disse:

“Traduzir em palavras nossas próprias experiências com a arte, a política e a educação, para que cada um que as escuta com atenção contraste essas experiências com suas próprias experiências. Isso é justamente o que para mim significa “pensar em público” ou “falar em público”.[1]

E ao ser questionado acerca do momento em que a arte acontece:

“A arte não está nem no artista, nem na obra, nem no espectador, mas na experiência, ou seja, no que acontece “entre” a obra e o espectador ou “entre” o espectador e a obra. Tudo acontece nesse “entre”.[2]

 Fui rumo á minha segunda viagem no texto Notas sobre a experiência e o saber de experiência.

Parti da localização da proposta dele que está disposta no parágrafo terceiro:

O que vou lhes propor aqui é que exploremos juntos outra possibilidade, digamos que mais existencial (sem ser existencialista) e mais estética (sem ser esteticista), a saber, pensar a educação a partir do par experiência/sentido. O que vou fazer em seguida é sugerir certo significado para estas duas palavras em distintos contextos, e depois vocês me dirão como isto lhes soa. O que vou fazer é, simplesmente, explorar algumas palavras e tratar de compartilhá-las.

E isto a partir da convicção de que as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação.

Ele inicia o seu raciocínio a partir de algumas afirmações como a tradução zôon lógon échon, de Aristóteles em “o homem é um vivente que fala”. Falar alcança um sentido que vai além do verbo falar. Ele nos afirma que fazemos uso da palavra de acordo com o modo que nomeamos aquilo que sentimos. 

Mas foi quando ele conceitua a palavra experiência, que fixei o meu olhar no termo que nos passa. Experiência tem que passar por nós. Não é aquilo que passa. Como exemplo de algo que passa simplesmente ele denota a informação. Volto a pensar no cenário da educação. É nele que devo me ater. Porque, se eu considerar outros processos que me são mais familiares como uma descrição de fatos em uma análise jurídica para fins de montar uma petição, por exemplo, a informação é elemento determinante para a comprovação dos fatos e não necessita que eu passe por essa experiência. Bingo!Eu estava tentando entender a minha leitura de acordo com a lupa da minha zona de conforto. Estava fechada pela minha experiência anterior. 

E foi nessa pressa que fiz a minha primeira leitura e minha primeira opinião. Pressa em emitir uma opinião. O autor nos questiona se os múltiplos canais de informação e a nossa falta de tempo, geram a confusão entre informação e conhecimento. Concordo e acrescentaria que nos confortam com a falsa impressão que sabemos de tudo um pouco.

E como demonstrou a minha resistência inicial ao texto em tela, é mais fácil receber uma informação pertinente ao nosso rol de experiências do que se permitir se apaixonar por uma nova. Por isso, se você também sentiu-se incomodado, sugiro que faça também uma segunda leitura.

A autora é advogada, graduada na Universidade Federal de santa Maria-RS e atualmente cursa o Mestrado Profissional em Gestão educacional na UNISINOS.

Contato:jalubiasi@gmail.com

About these ads

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s